#31 / "A gente ensina o que a gente é" - com Marcelo Cunha Bueno

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Introdução: A Infância como Condição Presente e a Jornada de Marcelo Cunha Bueno

O podcast “Entre uma coisa e outra” recebeu Marcelo Cunha Bueno, educador, escritor e pai, com mais de 30 anos de experiência no chão da escola. Ele é fundador e diretor pedagógico da escola Estilo de Aprender, ajudou na construção de uma escola comunitária em Moçambique e criou a Teia de Saberes, espaço de formação para educadores. Autor de quatro livros sobre infância e educação, ele viaja com a família pesquisando diferentes escolas pelo mundo. Sua atuação é marcada por temas como afeto, limites, brincadeira, autonomia, tempo e presença.

Marcelo iniciou contando sua história: praticamente nasceu dentro de uma escola, pois sua mãe foi professora por 50 anos. Tornou-se professor antes dos 18 anos e trabalhou em muitos lugares — escolas, empresas, televisão, revistas. Sua experiência mais transformadora foi conhecer escolas na Ásia e na África, onde pôde vivenciar uma educação voltada para a coletividade, em contraste com o Ocidente, que prioriza o desenvolvimento individual. A conversa girou em torno da pergunta central: estamos educando crianças para viver a infância ou para performar bem para o futuro?

A Experiência no Oriente e na África: O Coletivo como Essência da Educação

Marcelo relatou que sua viagem pelo continente asiático e africano o transformou profundamente, tanto como ser humano quanto como professor. Ele conheceu escolas rurais no Camboja, escolas militares em Singapura, escolas tecnológicas, espirituais no Nepal e na Índia. Apesar das diferenças, todas carregavam um compromisso com a coletividade. No Oriente, a ideia central é que “de nada vale você guardar a coisa para você. Você só aprende se você for capaz de transformar as pessoas e o mundo”.

Isso contrasta com a educação ocidental, que, segundo Marcelo, está presa ao desenvolvimento da individualidade e ao sucesso individual. As teorias pedagógicas ocidentais orientam a ação do professor para que o aluno conquiste o mais alto grau de sucesso. No Oriente e na África, a resistência está no corpo e no coletivo, no sensorial, na tradição oral, na cultura. Para a cultura pedagógica ocidental, isso é uma radicalização, mas é justamente o que é mais simples: afeto, coletivo, grupo. Marcelo provoca uma reflexão: quanto mais estudamos o que é sucesso, mais percebemos que a real felicidade está no acolher, dividir e transbordar, e não no acumular.

A Crise do Sucesso: Como a Sociedade Cobra Performance e Afasta a Infância

Marcelo faz uma crítica contundente à noção de sucesso que a sociedade cobra: uma performance que exige uma vida de sacrifício, onde a felicidade é o topo de uma montanha a ser alcançado. Para a criança, o sucesso é totalmente diferente: é aprendizado. Quando a criança cai ao aprender a andar, ela chora, levanta e tenta de novo; ela entende aquilo como aprendizado, não como fracasso. O adulto, ao contrário, vê o erro como fracasso.

Essa lógica de performance afasta a possibilidade de nos conectarmos com a infância. Marcelo explica que a infância não é uma fase que fica no passado, mas uma condição presente de como enxergamos a vida, com surpresa, inteireza e um olhar verdadeiro. Ele cita o exemplo de uma criança prestando atenção numa formiguinha e que se distrai com um barulho: não é TDAH, é que ela está aberta ao mundo. A criança, quando está num lugar, está inteira. Estar inteiro em cada momento é o que significa se conectar à infância, entendendo que o tempo da criança é o tempo da intensidade, não o tempo do relógio.

O Brincar como Condição Humana e Não Apenas Pedagógica

Marcelo critica a visão pedagógica que coloca a brincadeira a serviço de algo. Para ele, a brincadeira é uma condição humana. “A gente brinca para se entender. A gente brinca como linguagem, como expressão de uma cultura, de um sentimento”. A brincadeira é uma comunicação que costura o mundo de dentro com o mundo de fora. Antes de ser pedagógica, ela é uma condição de se relacionar com o mundo. A criança brinca para existir.

A Coragem de Fazer Educação: O Conteúdo a Serviço da Transformação

Marcelo foi questionado sobre o dilema das escolas que têm medo de tirar os alunos da sala de aula para propostas inovadoras, temendo não cumprir o currículo. Sua resposta foi direta: é preciso ter coragem para fazer educação, coragem de sustentar aquilo que realmente importa. Ele reconhece que existe uma cobrança social pela performance conteudista e que as escolas estão indo nessa direção, mas afirma: “O conteúdo não pode ser performance. O conteúdo precisa ser um instrumento de transformação pessoal para a gente melhorar o coletivo”.

A frase estampada em sua camiseta resume seu pensamento: “A gente não ensina o que a gente sabe, a gente ensina o que a gente é”. Um conteúdo sem uma pessoa transformada por ele não vale nada. A criança não está atrás da verdade da palavra, mas quer saber se no olhar do professor existe entrega, se existe importância, se aquele conteúdo transformou o adulto. As crianças aprendem por gratidão ao amor que sentem pelo professor. Por isso, as escolas precisam ter coragem de pensar sobre o que se é e compartilhar isso com verdade.

A Paternidade e a Empatia: A Transformação do Educador

Marcelo compartilhou que sua paternidade o transformou radicalmente como ser humano e como professor. Antes de ser pai, ele achava que ser professor e ser pai eram coisas separadas. A paternidade lhe trouxe empatia para se colocar no lugar das famílias. Ele passou a olhar para as famílias com muito mais respeito, entendendo que todas as inseguranças e ansiedades são legítimas. Educar crianças num mundo com pouca escuta e pouca generosidade é muito difícil.

Ele observa que muitas escolas nutrem ressentimento em relação às famílias, cobrando participação sem entender que a família contemporânea trabalha uma jornada maluca. Ele propõe uma mudança de olhar: a escola precisa ver a família como alguém que precisa de ajuda para atravessar esse mundo. E faz a pergunta crucial: “Se não a escola, quem?”. Se a família está ausente, quem vai educar a criança? Os influenciadores digitais? A escola precisa assumir o papel de dar colo, amor, presença e escuta. “Escola é família”, afirma.

O Ressentimento nas Escolas e a Necessidade de Escutar as Famílias

Marcelo aprofundou a discussão sobre a relação entre escolas e famílias. Ele reconhece que existe um ressentimento por parte dos educadores, que se sentem sobrecarregados e desvalorizados. No entanto, ele propõe que as escolas saiam dessa lógica. “Tudo que nasce a partir de ressentimento tende a morrer, a se desfazer, a se enfraquecer”. A escola precisa escutar o que a família traz, sem a necessidade de responder imediatamente a tudo. Às vezes, é preciso pedir um tempo, construir uma relação que não acontece no imediato.

Ele critica a postura de escolas que respondem com generalizações como “é uma fase, vai passar”, fugindo das conversas difíceis. “Escolas têm medo de conversas difíceis. Essa é a real”. Ele defende que a escola precisa ter coragem para entrar na questão, dizer o que não está certo e construir uma parceria com a família. Se a escola não transforma a família, a criança não muda. A criança desenvolve intimidade em casa, mas pratica o social na escola; se não houver ressonância em casa, aquilo não é introjetado como personalidade. É um ciclo que precisa ser mostrado às famílias com coragem e respeito.

O Batente da Porta: Uma Estratégia para Engajar as Famílias

Questionado sobre como engajar as famílias, que muitas vezes não comparecem a reuniões, Marcelo deu uma dica prática: a escola precisa se abrir para o “batente da porta”. Muitas escolas não deixam a família entrar no seu espaço. A escola deve aproveitar os momentos de entrada e saída para se conectar com as famílias, que estão cansadas e não querem voltar à noite para uma reunião. “Se contentar com aquilo que a família pode oferecer”, diz ele. Conversar no batente da porta, indicar um livro, fazer uma fala pode ser a maior parceria que pode existir.

Se a escola promove um evento maior e apenas 40 de 4.000 famílias comparecem, isso não deve ser motivo para desânimo. “E que bom que 40 vieram”. A ausência da família também educa, mas a escola não pode deixar de fazer o que acredita porque não tem aplauso. “A escola precisa fazer porque acredita, porque faz parte da sua essência”.

A Mensagem Final: Educação como uma Viagem para Dentro

Na mensagem final, Marcelo Cunha Bueno deixou uma reflexão profunda. Ele afirma que não existe possibilidade de dialogar com a infância e com a educação sem fazer uma viagem para dentro. “Educação é uma viagem para dentro. É preciso um processo de autoconhecimento profundo para entregar às crianças aquilo que a gente tem de melhor e mais autêntico”.

Num mundo que cobra performance, corpo perfeito, posicionamentos específicos e sucesso absoluto, é muito difícil se reconhecer incompleto, reconhecer as inseguranças e incertezas. Mas é justamente isso que leva ao encontro da verdade que a criança precisa. Ele conclui com um convite à leveza: “Sem culpa, sem ressentimento, a gente precisa se conectar à intensidade da vida, entender que uma vida é feita de muitas pegadas. A gente tem tempo para cair, para se levantar, para recomeçar, como as crianças fazem todos os dias”. Citando Nietzsche, ele finaliza: “Eu não quero leitores que marchem, eu quero leitores que dancem. É isso, que a gente dance muito”.