#30 / Calma, é só a adolescência! - com Claudia Alaminos

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Introdução: A Adolescência Como Uma Fase de Descoberta e Desafio

O podcast “Entre uma coisa e outra” recebeu a renomada educadora parental Cláudia Alaminos, fonoaudióloga, psicopedagoga e mestre em psicologia e educação pela USP, para uma conversa transformadora sobre a adolescência. Com mais de uma década de experiência orientando famílias, Cláudia é autora do recém-lançado “Manual de Sobrevivência para Pais de Adolescentes” e é reconhecida por ajudar pais e mães a compreenderem essa fase da vida com mais informação, menos medo e mais conexão. O episódio explorou por que a adolescência é vista como um período de conflito, o papel dos limites, a importância da autonomia e o desafio da comunicação.

A conversa começou com a emocionante história de como Cláudia entrou no universo da adolescência. Formada em fonoaudiologia e inicialmente atuando com crianças em ambiente hospitalar, ela montou um consultório com foco infantil. No entanto, começaram a chegar adolescentes, e ela se viu sem ter para quem encaminhá-los. Foi então que, como ela mesma diz, “a adolescência me escolheu”. Ela se dedicou a estudar o tema, lendo artigos em línguas estrangeiras com dicionário, movida pelo encanto de descobrir que, ao se abrir para o adolescente, ele inevitavelmente se abre para você. Esse é o primeiro grande ensinamento: o adulto pode aprender a manejar a relação e a quebrar a “concha” em que o adolescente parece estar fechado.

O Que Mudou no Adolescente e a Visão dos Adultos

Cláudia explica que a adolescência sempre foi uma fase de conflito, como atestam artigos de mais de 100 anos. O que muda é o contexto e a postura dos adultos. O grande trabalho da adolescência é a formulação da própria identidade. Enquanto a criança acredita na onipotência e onisciência dos pais, o adolescente passa a questionar: “Será que estou linda mesmo ou estou linda porque você comprou essa roupa?”. Esse conflito surge por dois motivos principais: a falta de compreensão dos adultos sobre o que é ser adolescente e a dificuldade dos pais em aceitar o crescimento dos filhos.

Cláudia destaca que tanto o adolescente quanto os pais passam por lutos nessa transição. O adolescente luta pela autonomia, enquanto os pais sofrem a perda da criança que um dia foi. Se o adulto não se coloca no lugar de adulto e não conduz o relacionamento com leveza, o conflito se intensifica. A palavra-chave para ela é leveza. É preciso levar leveza para a casa e para o relacionamento, entendendo que o adolescente está em um processo natural e não é uma ameaça pessoal.

A Solidão dos Pais e a Transgressão como Parte do Desenvolvimento

Um dos pontos mais sensíveis abordados por Cláudia foi a solidão dos pais de adolescentes. Quando uma criança faz birra no chão do supermercado, todos têm uma opinião e há uma rede de apoio. Quando um adolescente chega bêbado de uma festa, os pais se sentem culpados e envergonhados, carregando o peso de que erraram. Esse isolamento é prejudicial, pois impede que eles busquem ajuda e compreensão.

Cláudia ressalta que é preciso ter cuidado ao comparar as adolescências. Muitos pais dizem que foram “mais bonzinhos” que seus filhos, mas ela sempre pergunta: “E qual foi a sua grande transgressão?”. Ninguém passa pela adolescência sem alguma transgressão. A diferença é que, na memória do adulto, aquilo é lembrado como uma aventura, enquanto a transgressão do filho é vista como irresponsabilidade ou um ataque pessoal. Ela alerta: “Calma, é só adolescência”. A tendência dos pais de sentenciar o filho como alguém que “não vai dar em nada” pode ser uma profecia autorrealizável, pois o adolescente pode acabar ocupando esse espaço negativo.

A Necessidade de Competência e o Olhar para o Positivo

Uma das necessidades primordiais do adolescente, segundo Cláudia, é sentir-se competente. Ele precisa se sentir bom em algo, seja jogar futebol, tocar um instrumento ou ser um bom amigo. O reconhecimento do outro é vital. No entanto, muitos pais estão tão focados no que precisa ser corrigido que esquecem de enxergar e valorizar as qualidades e competências do filho. Quando o adolescente ouve constantemente que só faz “porcaria”, ele internaliza a ideia de que “é assim mesmo” e pode levar esse rótulo para a vida adulta. É fundamental que os pais olhem para o que os filhos têm de positivo.

O Dilema da Autorização: Entre o “Amigão” e o “General”

Cláudia abordou o preocupante fenômeno de pais que autorizam ou até ajudam os filhos a fazerem coisas erradas, como tirar RG falso para entrar em festas ou ensinar a beber. As justificativas são comuns: “prefiro que faça comigo do que escondido” ou “se ele não fizer, será excluído socialmente”. Ela identifica duas causas principais: pais que, por uma vida enlouquecida de trabalho, têm pouco tempo para construir intimidade e morrem de medo de perder o amor dos filhos, e uma visão social que coloca o pai entre dois extremos – ou o “melhor amigo” ou o “general”.

A resposta de Cláudia é contundente: o pai não tem o direito de ser o amigão que passa a mão na cabeça e esconde os erros. O papel do pai é exercer a hierarquia com responsabilidade. Ela coloca o dilema: “O que você vai trair? Os seus valores e o exemplo que tem que dar, ou a confiança do seu filho?”. Ser honesto e assumir a responsabilidade é o certo. Em relação à bebida, ela alerta que autorizar o consumo na adolescência é uma atrocidade, pois o jovem autorizado a beber em casa tende a beber mais fora, já que o cérebro adolescente é voraz por recompensas e pode desenvolver dependência mais facilmente. Ela conclui que o adolescente que não tem limites dos pais é um adolescente desamparado.

Desenvolvendo Autonomia de Forma Gradativa e Segura

Cláudia faz uma distinção importante entre autonomia e independência. A autonomia é desenvolvida ao longo da vida, desde a criança que leva a colher à boca até o adolescente que aprende a se gerenciar. A independência é consequência. Para desenvolver a autonomia, não há prescrição por idade; é preciso olhar para o filho específico. O pai ou a mãe conhece o filho e deve conceder autonomias de forma gradativa, sempre com a possibilidade de voltar atrás. Por exemplo, se o filho vai a uma festa e volta bêbado, ele não está pronto para ir sem adultos. Não é uma punição eterna, mas um recuo necessário para que ele aprenda.

Ela faz um apelo para um pacto coletivo entre os pais. Se você sente que deve dizer não a um ambiente ou a uma situação, diga. Não caia na armadilha do “todo mundo vai”. Essa história de “todo mundo menos eu” é uma fala típica de adolescente, e os pais não podem se deixar levar por ela. Dizer “não” é, muitas vezes, uma forma de preservar a vida do filho, especialmente considerando que o adolescente assume muito mais riscos em grupo do que em casa. O filho que você conhece dentro de casa não é o mesmo que está na turma.

Como Conversar com um Adolescente que Não Fala

Um dos maiores lamentos dos pais é: “Meu filho não conversa comigo”. Cláudia começa com um consolo: é normal que o adolescente fale menos do que a criança. Isso é parte do luto dos pais, que sentem falta da criança que os esperava na porta. Além disso, a reorganização cerebral e a poda de receptores de dopamina ajudam o adolescente a se aquietar e a ler o ambiente.

Para estabelecer comunicação, ela recomenda interessar-se pelos interesses do filho, e não apenas por sua vida escolar. Perguntar sobre o videogame, a influencer favorita, o esporte. A chave para a comunicação é o interesse genuíno. Outra dica é priorizar atividades lado a lado, como cozinhar ou andar de carro, pois é mais confortável para o adolescente do que uma conversa frente a frente. Respeite o silêncio; se ele se calar, cale-se também. Conte uma história curta sobre o seu dia e mantenha o diálogo aquecido. O que não se pode fazer é desistir e jogar a toalha.

O Engajamento do Adolescente na Escola e a “Geração Algoritmo”

Cláudia trouxe um conceito poderoso: a “geração algoritmo”. Assim como o algoritmo do Instagram só entrega conteúdo que interessa ao usuário, os adolescentes estão acostumados a só se engajar com o que lhes é imediatamente prazeroso ou relevante. Essa é a origem da pergunta: “Por que vou aprender isso?”. A escola, portanto, precisa ir além do conteúdo individual e mostrar a aplicação no coletivo.

Ela observa que muitos adolescentes chegam à sala de aula sem cumprimentar ninguém, demonstrando uma perda do olhar para o outro. O trabalho de convivência é fundamental. Atividades que desenvolvem empatia, como serviços voluntários (visitar lares de idosos, ler para crianças em creches), são poderosas. Elas fornecem um sistema de recompensa que não está ligado ao prazer imediato, mas à satisfação de fazer o bem. Isso combate o egocentrismo gerado pela tecnologia, onde o jovem está acostumado a não ter desprazer e a obter tudo na hora que quer.

O Poder Transformador do Voluntariado e da Liderança

O apresentador, Quito Vívolo, compartilhou sua experiência pessoal de ter sido um adolescente difícil e como a experiência de ser monitor em um programa do NR o transformou. Ao ser colocado em uma posição de liderança, ele teve a oportunidade de ensinar, de se doar e de ser admirado. Essa experiência, que ele inicialmente viu como uma obrigação, tornou-se a paixão que definiu sua vida.

Cláudia reforça que o senso de competência e a admiração são motores poderosos para o adolescente. Ao ser colocado em um projeto onde ele pode dar o seu melhor (seja no teatro, no esporte ou na música) e ser útil a alguém, o adolescente encontra um propósito. Ela conta o caso de um adolescente extremamente materialista que, ao ser incentivado a ler para crianças de uma creche carente, se transformou, mobilizando amigos e familiares para pintar e melhorar o espaço. Essa experiência de olhar para o outro o fez valorizar menos as grifes e mais o impacto de sua ação. A recomendação para as escolas é clara: busquem projetos onde os adolescentes possam mentorar, ajudar e doar o seu melhor.

Nunca é Tarde para Recomeçar: O Primeiro Passo

No encerramento, Cláudia deixou uma mensagem de esperança para os pais que se sentem culpados ou atrasados. Ela conta que já atendeu um casal com mais de 80 anos que queria melhorar a relação com o filho de 40 anos. A mensagem é: enquanto houver vida, há tempo. A culpa é um sentimento “mortal” que paralisa. É preciso dar o primeiro passo, mesmo que seja pequeno, e errar no segundo, para então voltar ao primeiro.

Ela enfatiza a importância de buscar aconselhamento se a situação estiver difícil demais. A conexão entre pais e filhos é crucial, pois sem ela não há relação. Para os pais, Cláudia indicou a peça de teatro “Interália”, com Drica Moraes e Caco Ciocler, que mostra como pais com as melhores intenções podem, por negligência, permitir que os filhos se envolvam em comportamentos de risco. Por fim, ela reitera que seu coração e sua caixa de mensagens estão abertos para acolher e orientar quem precisa, porque acredita no poder da transformação.