Introdução: O Senso de Urgência na Educação e a Bet Brasil 2026
O podcast “Entre uma coisa e outra”, apresentado por Quito Vívolo, recebeu dois convidados especiais para um episódio pré-Bet Brasil 2026: Edmilson Cardial, diretor da Editora Segmento e fundador da Revista Educação, e Adriana Martinelli, Diretora de Conteúdo da Bet Brasil. O programa destacou um ponto crucial: a necessidade de um senso de urgência no presente. A grande briga na educação contemporânea chama-se tempo, e a mensagem central é que as transformações não podem mais ser adiadas para o futuro. Este post de blog é um mergulho profundo nos principais temas discutidos, baseado exclusivamente na transcrição do episódio.
A Bet Brasil 2026, o maior evento de educação e tecnologia da América Latina, acontecerá de 5 a 8 de maio no Expo Center Norte, em São Paulo. O evento foca na transformação educacional com destaque para novas tecnologias e experiências educacionais, reunindo líderes, educadores e expositores. Este episódio serve como um spoiler, oferecendo informações em primeira mão sobre os desafios e as inovações que moldam o setor.
O Tema Central da Bet 2026: Diálogo Entre as Três Inteligências
Adriana Martinelli revelou o tema estratégico definido para a Bet 2026, que não surgiu por acaso, mas de um processo colaborativo. A curadoria envolve múltiplas reuniões com um conselho, escutas com expositores e congressistas, e uma análise aprofundada de mercado para identificar os desafios mais prementes. O tema geral busca dar luz a uma pauta crucial: como o educador dialoga com todas as inteligências presentes no contexto escolar.
As três inteligências identificadas como fundamentais são: a inteligência humana, a inteligência artificial e a inteligência coletiva. A transformação na educação, segundo a visão da Bet, só acontecerá se houver um diálogo equilibrado entre elas. Não se trata apenas de aprender a usar a IA ou de desenvolver habilidades humanas isoladamente, mas de entender como essas forças interagem para gerar melhores resultados educacionais. Esse é o grande foco e o chamado para o senso de urgência, deixando claro que a IA não é um modismo passageiro, mas uma realidade que veio para ficar e que precisa ser integrada agora.
Como a Revista Educação Prioriza os Temas e Enfrenta o Desafio do Tempo
Edmilson Cardial compartilhou sua experiência de 30 anos no jornalismo educacional, descrevendo a evolução do modelo analógico (revista impressa) para o digital. Atualmente, a Revista Educação opera com um conselho editorial e de curadoria, produzindo conteúdo para revista digital, impressa, site, redes sociais, eventos e podcast. A priorização de temas, como as matérias de capa, é feita para ajudar o leitor a se tornar um ser humano melhor, estruturando seu discurso e sua capacidade de diálogo com a direção da escola, pais e alunos.
Um dos maiores desafios destacados por Edmilson é a briga pelo tempo das pessoas. As redes sociais, com seus algoritmos projetados por cientistas para prender a atenção, são concorrentes diretos da leitura profunda. A revista passou a produzir matérias menores para que os leitores consigam chegar ao final, e o foco se deslocou do professor diretamente para as lideranças escolares. A premissa é clara: não há nenhuma escola boa que tem um diretor ruim. Um bom diretor pode transformar uma escola, seja ela pública ou privada, e a Revista Educação atua como uma ferramenta de educação continuada para esses líderes.
Filtrando o Relevante do Modismo e O Papel da NR-1
Adriana Martinelli explicou como a Bet filtra assuntos relevantes em meio a tantos modismos. A posição da Bet é de ser apartidária, agnóstica e imparcial, colocando diversas perspectivas em debate. A limitação se dá pela agenda, capacidade dos auditórios e, principalmente, pelo público-alvo: majoritariamente gestores escolares (coordenadores e equipes gestoras). Portanto, os temas precisam dialogar com a realidade e os interesses desse público, e não apenas seguir tendências.
Um exemplo prático citado foi a NR-1 (Norma Regulamentadora 1), que, embora não seja nova, tornou-se um assunto crítico após ser regulamentada. Escolas estão “apavoradas” com a necessidade de cuidar do clima organizacional e da saúde mental de educadores, o que agora será medido e avaliado. Adriana enfatiza que tudo na grade da Bet precisa ter intencionalidade na aprendizagem, ligando cada tema ao processo de aprendizagem dos estudantes. A construção da grade, portanto, é um ato pedagógico em si mesmo, refletindo a mesma homologia metodológica que se espera das escolas com seus alunos.
A Pressão das Famílias e o Conflito Latente nas Escolas
Edmilson Cardial trouxe uma análise contundente sobre a relação escola-família. Ele observa que os grupos de WhatsApp de pais se tornaram uma “ponta do inferno” para os gestores. Pais, por vezes munidos de pareceres jurídicos gerados por IA, pressionam as escolas com expectativas que muitas vezes não podem ser atendidas. O conflito é latente: a escola não é a casa do aluno, mas o lugar onde ele aprende a viver em sociedade, fazendo concessões.
Adriana complementa, apontando uma terceirização da família, especialmente na rede privada, que transfere responsabilidades para a escola. Por outro lado, a escola, numa relação infelizmente comercial, muitas vezes se omite e atende a anseios que não deveria, ficando refém da pressão dos “clientes”, especialmente em um cenário de queda na taxa de natalidade que já fecha escolas de educação infantil. O gestor, que geralmente veio da sala de aula, encontra-se sozinho, pressionado por pais, professores, fornecedores de tecnologia e a necessidade de resultados, sem a devida bagagem em gestão de crise e de mudanças.
Inovação na Prática: A Disrupção da Alpha School e a Realidade Brasileira
Quito Vívolo apresentou o caso da Alpha School nos Estados Unidos, que possui 25 unidades. O modelo se baseia em 2 horas diárias de “core academic learning” (aprendizado acadêmico central) com mentoria individualizada por IA, e as outras 6 horas dedicadas a “life skills” (criatividade, comunicação, debate, descoberta de talentos). Segundo o fundador, a escola está em primeiro lugar em todos os testes, comparada ao top 1% das escolas particulares americanas.
Questionado sobre a existência de algo semelhante no Brasil, Edmilson respondeu que existem “ilhas de prosperidade” em escolas de elite em São Paulo e Rio, mas que a realidade brasileira é muito difícil. Ele lembra que 80% das crianças na educação básica estão em escolas públicas, e a desigualdade começa antes mesmo do nascimento, com filhos de mães de baixa escolaridade tendo aprendizagem muito menor. Edmilson destacou a evolução na oferta de vagas, mas alertou que a escola particular brasileira é um fenômeno à parte, alimentada pela falência histórica do investimento público consistente.
O Modelo Alpha School é Viável no Brasil? LDB e BNCC Permitem Inovar
Adriana Martinelli trouxe um contraponto otimista e técnico. Ao contrário do que muitos pensam, a LDB (Lei de Diretrizes e Bases) brasileira é de vanguarda. Ela menciona um artigo específico que permite o agrupamento de alunos por idade, gênero, habilidades ou “qualquer outro indicador que prevaleça a aprendizagem”. Ou seja, modelos como o da Alpha School são viáveis legalmente.
O verdadeiro obstáculo, segundo Adriana, não é o MEC ou a lei, mas a natureza humana conservadora. O cérebro busca o caminho de menor esforço, e inovar dá trabalho. Existe uma tendência a arranjar desculpas para não mudar, fingindo que se ensina enquanto os alunos fingem que aprendem. Ela conclui que não é a tecnologia o problema, mas sim o ser humano que opera essa tecnologia. Precisamos ser mais humanos, ouvir o outro e parar de cair na polaridade. A dificuldade de aceitar inovações como a Alpha School revela mais sobre nossas próprias lentes e padrões do que sobre o modelo em si.
A Contradição na Prática: Autonomia no Discurso, Rigidez na Ação
Adriana Martinelli abordou a discrepância entre o discurso das escolas e a prática cotidiana. Sites institucionais pregam autonomia dos alunos, formação integral e inovação, mas a realidade ainda impõe que um aluno precise levantar a mão para pedir permissão para ir ao banheiro. A pergunta que fica é: que autonomia o aluno realmente tem?
Essa contradição se manifesta também na estrutura rígida de horários (matemática três vezes por semana por 50 minutos), no agrupamento estanque por idades e na impossibilidade do erro. Um experimento na rede municipal de Nova York, citado por Adriana, criou uma gestão paralela de inovação (ISO), onde escolas podiam aderir a um novo modelo. Para inovar, o primeiro passo não é uma revolução total, mas algo mais simples e ao mesmo tempo mais difícil: abrir espaço na agenda para escutar professores e alunos, permitindo que coisas novas aconteçam. A falha em fazer isso impede resultados diferentes.
O Papel do Gestor Solitário e a Necessidade de Formação em Liderança
A conversa destacou a figura do gestor escolar como um profissional solitário, sobrecarregado e com pouca bagagem específica em gestão. Originário da sala de aula, ele precisa articular processos, cuidar do clima organizacional, gerir crises (como bullying e violência), lidar com a pressão das famílias e ainda assim encontrar caminhos para a inovação. Edmilson mencionou a Academia de Líderes (vinculada à Revista Educação) como um espaço onde esses gestores podem compartilhar aflições e realidades, confrontando suas experiências com as de outros.
Adriana complementa que, para além de ver as inovações das empresas e a grade de palestras, o profissional deve ir à Bet para se reinventar. Ela sugere que os participantes se coloquem em situações novas, conversem com pessoas diferentes, assistam a palestras sobre assuntos que “nada têm a ver” com sua área e vivam experiências como a sala de aula invertida ou o auditório “Aquário”, onde se pode subir ao palco e interagir com os palestrantes. A Bet é apresentada como um lugar de desconstrução e conexão, onde todo o setor educacional se encontra.
Recados Finais: Onde Buscar Conteúdo e Por Que Participar da Bet
Edmilson Cardial deixou seu recado para os profissionais da educação: acessem o site revistaeducação.com.br, que possui conteúdo aberto e atualizado, e inscrevam-se na Academia de Líderes, ainda gratuita. Ele celebrou os 30 anos da revista e reforçou seu entusiasmo por projetos inovadores, como o ensino por projeto, que enxerga como uma metodologia moderna capaz de dar aplicabilidade prática a disciplinas difíceis como matemática e química.
Adriana Martinelli, por sua vez, fez um apelo apaixonado: as pessoas devem ir à Bet para se conhecerem. Mais do que ver lançamentos e assistir palestras, é uma oportunidade de sair da bolha dos algoritmos, fazer novas conexões, fazer amigos, e se permitir ser surpreendido. O conselho final é para que os educadores saiam de casa, participem de eventos, vivam experiências novas e continuem ouvindo o podcast “Entre uma coisa e outra”, que trará as melhores cabeças da educação a cada 15 dias.